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Estudo publicado
Pessoas, Cultura e GeraçõesEm estudo

Quem precisa se adaptar: as pessoas ou a empresa?

As novas gerações mudaram. Mas o cotidiano também mudou — e muitas empresas continuam oferecendo um modelo de trabalho criado para outra realidade.

Profissionais conectando formas tradicionais e digitais de trabalhar em uma empresa
A adaptação acontece no encontro entre pessoas, processos, tecnologia e a realidade do trabalho.
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O texto completo será apresentado abaixo, com imagens inseridas apenas quando contribuírem para a compreensão do estudo.

Existe uma frase que se repete cada vez mais dentro das empresas:

“As pessoas não querem mais trabalhar.”

Ela normalmente aparece quando uma vaga demora a ser preenchida, quando um profissional recém-contratado pede demissão ou quando alguém questiona uma regra que sempre existiu.

É uma explicação confortável. Coloca o problema nas novas gerações, na falta de comprometimento ou na mudança de valores da sociedade.

Mas talvez a realidade seja um pouco mais complexa.

As pessoas não pararam de trabalhar. Elas mudaram o que aceitam em troca do trabalho.

E as empresas, em muitos casos, ainda não perceberam a dimensão dessa mudança.

A

Não é apenas uma questão de geração

As diferenças entre gerações existem.

Pessoas que cresceram em épocas diferentes desenvolveram formas diferentes de enxergar estabilidade, hierarquia, carreira, autoridade e qualidade de vida.

Durante muito tempo, ter um emprego formal representava muito mais do que receber um salário. Era uma conquista social. A pessoa incorporava a empresa à própria identidade. Era comum alguém ser reconhecido pelo nome da organização onde trabalhava.

Permanecer muitos anos na mesma empresa era motivo de orgulho. Trabalhar além do horário era entendido como demonstração de comprometimento. Crescer profissionalmente significava esperar, acumular experiência e conquistar espaço com o tempo.

Esse modelo formou profissionais extremamente dedicados e ajudou a construir empresas sólidas.

Mas o mundo ao redor dessas empresas mudou.

Por isso, limitar a discussão à geração X, Y ou Z pode nos levar a uma conclusão incompleta. A tecnologia não mudou apenas o comportamento dos jovens. Ela alterou os hábitos de praticamente todas as pessoas, em diferentes intensidades.

Hoje, alguém com mais de 60 anos pode usar Pix, WhatsApp, aplicativos bancários, serviços de entrega, streaming e inteligência artificial.

Não importa apenas o ano em que a pessoa nasceu. Importa também a realidade em que ela vive.

A sociedade mudou. O cotidiano mudou. E essas mudanças atravessaram todas as gerações.

B

A maior transformação aconteceu fora das empresas

Antes de mudar a nossa relação com o trabalho, a tecnologia mudou a nossa relação com quase todo o restante.

Trocamos o boleto pelo Pix e a ligação pelo WhatsApp. Compramos pela internet e acompanhamos a entrega em tempo real. Escolhemos um restaurante pela avaliação de outras pessoas. Aprendemos assistindo a um vídeo específico, no momento em que surge a dúvida.

Quando fazemos uma solicitação, esperamos uma confirmação. Quando existe um processo em andamento, queremos saber em qual etapa ele está. Quando precisamos aprender alguma coisa, procuramos a resposta exata — não necessariamente um manual inteiro.

Esses hábitos mudaram nossa forma de aprender, decidir, consumir e esperar respostas.

Depois, entramos na empresa.

E encontramos processos sem acompanhamento, treinamentos realizados uma única vez, pouca clareza sobre desenvolvimento e comunicações que explicam a tarefa, mas nem sempre explicam o contexto.

Do lado de fora, acompanhamos em tempo real onde está uma compra de baixo valor.

Dentro da empresa, muitas vezes um profissional não sabe como está sendo avaliado, qual caminho pode percorrer ou se está fazendo um bom trabalho.

É nesse encontro que nasce parte do desconforto que atribuímos às novas gerações.

O problema não é apenas que as pessoas ficaram mais exigentes. O padrão de referência delas mudou.

A pergunta, portanto, não deveria ser somente “por que essa geração não se adapta?”. Também precisamos perguntar: “o nosso modelo de gestão acompanhou as mudanças que aconteceram fora da empresa?”.

C

Da cultura do emprego para a cultura do trabalho

Durante décadas, o vínculo entre empresa e profissional foi sustentado principalmente por salário, estabilidade e carteira assinada.

A empresa oferecia emprego. Em troca, esperava presença, obediência, produtividade e permanência.

Esse modelo não desapareceu. Salário, segurança e vínculo formal continuam importantes — inclusive para os profissionais mais jovens.

A diferença é que, para muitas pessoas, isso já não é suficiente para sustentar uma relação de longo prazo.

A cultura do trabalho acrescenta outras expectativas: pertencimento, reconhecimento, qualidade de vida, possibilidade de aprendizado e clareza sobre a importância daquilo que se faz.

Isso não significa transformar a empresa em um espaço de entretenimento. Também não significa aceitar qualquer exigência ou abandonar processos, disciplina e responsabilidade.

Significa compreender que o vínculo não se mantém apenas pelo contrato.

No ambiente operacional, por exemplo, flexibilidade nem sempre significa trabalho remoto. Pode signific ter uma escala previsível, uma folga respeitada e clareza sobre o início e o fim da jornada.

Propósito não precisa ser um discurso bonito na parede. Pode ser explicar por que determinada tarefa é importante, mostrar seu impacto no resultado e reconhecer publicamente um trabalho bem executado.

Crescimento não significa promover alguém todos os anos. Pode ser oferecer um treinamento claro, permitir evolução dentro da própria função e demonstrar quais responsabilidades a pessoa poderá assumir.

Segurança também não se resume aos equipamentos obrigatórios. Envolve uma rotina organizada, equipamentos em boas condições e uma liderança presente na operação.

A mudança de modelo aparece nessas experiências do dia a dia.

D

O encontro das gerações acontece na liderança

De um lado, temos lideranças formadas pela experiência, pela repetição, pela hierarquia e pelo tempo de casa.

Do outro, profissionais formados pela informação, pela tecnologia, pelo feedback, pela velocidade e pelo acesso imediato ao conhecimento.

Nenhum dos lados está completamente errado.

São pessoas formadas em realidades diferentes.

O problema começa quando a experiência se transforma em resistência e quando a velocidade se transforma em impaciência.

Quem tem muitos anos de trabalho precisa compreender que as pessoas já não aprendem, se comunicam e constroem vínculos exatamente da mesma maneira.

Quem está chegando precisa entender que nem tudo acontece na velocidade de um aplicativo. Construir experiência exige repetição, responsabilidade, disciplina e tempo.

O papel da liderança é construir a ponte entre essas duas realidades.

Não se trata de escolher entre experiência e inovação. Trata-se de utilizar a tecnologia e novas formas de comunicação para transmitir um conhecimento que levou décadas para ser construído.

E

O risco não é apenas perder pessoas

Atuo em uma empresa familiar com quase seis décadas de história.

Nesse ambiente, convivem pessoas que acabaram de chegar e profissionais com 20, 30 ou até 40 anos de empresa. Isso representa um patrimônio enorme de experiência prática, conhecimento técnico e entendimento do negócio.

Mas também cria um desafio real.

Quando um novo profissional chega e a integração não acompanha, a aprendizagem demora. A liderança perde o ritmo ou a paciência. O profissional se frustra e sai. Depois, outra pessoa é contratada e o ciclo começa novamente.

A empresa acredita que está perdendo apenas um funcionário.

Na verdade, está perdendo o tempo investido, o aprendizado iniciado e mais uma oportunidade de transferir o conhecimento acumulado por quem está há décadas na organização.

Por isso, o verdadeiro risco não é apenas perder pessoas. É perder conhecimento.

Preservar a história de uma empresa não significa manter todas as práticas exatamente como sempre foram. Significa encontrar novas formas de transmitir aquilo que continua importante.

A cultura pode permanecer atual. Mas a forma de ensiná-la, comunicá-la e praticá-la também precisa evoluir.

F

Afinal, quem precisa se adaptar?

As pessoas precisam se adaptar.

Precisam compreender que o trabalho exige responsabilidade, constância, convivência, paciência e capacidade de atravessar momentos que não oferecem recompensa imediata.

Mas as empresas também precisam se adaptar.

Precisam rever como integram, ensinam, comunicam, reconhecem e lideram.

Não podemos controlar as transformações da sociedade. Também não podemos escolher quais gerações estarão disponíveis no mercado de trabalho.

Podemos, porém, decidir como vamos recebê-las.

Talvez a dificuldade que muitas empresas chamam de “falta de mão de obra” seja, em parte, uma dificuldade de oferecer o trabalho de uma forma compatível com o mundo atual.

Não significa abandonar a experiência construída no passado.

Significa criar uma ponte para que ela consiga chegar ao futuro.

Esse é o raciocínio que construímos até aqui. Mas a reflexão não termina com o texto.

Agora começa a parte mais importante: transformar essas ideias em ações. Vamos desenvolver um planejamento para rever, na prática, nossa forma de integrar, ensinar, comunicar, reconhecer e liderar.

A proposta é acompanhar esse processo e voltar aqui para contar o que foi aplicado, como as pessoas reagiram, quais resistências apareceram, o que precisou ser ajustado e quais resultados conseguimos alcançar.

Não para apresentar uma fórmula pronta, mas para compartilhar uma experiência real — inclusive aquilo que não funcionar.

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